JOVEM GUARDA MOMENTOS QUE NÃO VOLTAM MAIS  escrito em quinta 29 novembro 2007 20:50

                                    Jovem Guarda (10° conto do livro "O Prêmio")

Sou um cara ansioso. Pegar na mãozinha, bater papinho, conversar sobre o sexo dos anjos, nunca foi meu forte. Namorada para se dá bem, permita-se levar pela vontade de ir longe no primeiro impulso. Ela quer, eu quero, sem eufemismos. Quando começa a rolar um papo tipo:
? Hoje não dá.
? Não é o momento certo.
? Na próxima semana.
? O sinal está vermelho.
? O mundo não vai acabar hoje.
Sei, sem crise, não vai rolar. Os sensores libidinais atentos, mas os sentidos do bem-bom se aplacam. Do tesão progressivo para a suspensão do interesse, um passo. Falo em ?off?, conforme a fêmea em pauta: Bom, estou te vendo na fissura, você não vai querer admitir. Fica tirando uma de que não está carente. De que passou por essa fase de transar na primeira de copas. Que está madura o suficiente para valorizar mais e melhor a emoção de um fuque-fuque.
? Transar, só se for num lance de maior compromisso.
Acontece vezes sem conta nos mais diversos contextos. Puta velha no lance, fico sabendo pelo cheiro, através do roçar dos pelos os dedos sentem a pele dos braços, da perna, das coxas. Da nuca, as mãos circulam no tecido das roupas. Elas não vestem nadinha: tudo vibração, interatividade. Energias afirmando meu lado feminino, ela, fortalecendo o masculino. O Tao no caos: encenando, refletindo. Ela, casada. Mulher de amigo meu pra mim é homem. Não adianta o sinal estar vermelho se o instinto está blue.
Pelo olhar, pelos gestos, sabe-se ao certo a seqüência do que vai rolar. Aos poucos, aqui e ali um carinho mais afoito, motivações. Muitas vezes dá para mudar a direção, tirar do ?freezer? a pedra de gelo do coração. Nossa senhora me dê a mão. Ela fica querendo. Tudo muda na seqüência, os pingos vermelhos na seda do absorvente, ficando mais raros. Aos poucos se aquece o fogo. Por vezes dá pra sentir a frieza aquecendo no contato. A intenção pétrea, morna, esquentando. Cuida do meu coração.
Hoje, quer um cara apenas para levar uns lero-leros, tanger a incômoda companhia da solidão. Desquitada, faz voltar a rotina das fluidas linhas de pensamento com as quais está habituada a acender a chama do ritmo das ilusões.
Deseja, talvez, apenas matar a saudade de outro namorado, de uma amizade que partiu. Trazer de volta, nem que seja por instantes, sentimentos longínquos, ante que se dispersem, diluam-se, de todo, na memória.
O luar na estrada solar. Lindo. Baixo o olhar outra vez. Ela está a reviver sensações entre dois ou três chopinhos. A lembrar de carícias que um dia a fizeram sonhar, entre uns e outros copos de vinho.
Tudo bem, garota. Você quem sabe. Dialogo comigo como se fosse com ela. De qualquer forma, por telepatia, sei qual a dela. Osmótica, o solvente de seus sais passa através do suor, da saliva da língua. Ela sabe segredos de liquidificador, adivinha. A química dos lêvedos a atuar. Agora, está mais na minha.
Mesmo que se desdobre em muitas, jamais vai acreditar, se quiser ficar a prevalecer na argumentação, que a mágica que ela imagina estar em curso, terá talvez perdido a razão de ser. Melhor mantê-la acreditando que não sei, de todo, qualé a dela. Que ela não está longe estando aqui, fazendo uso e abuso de minha proximidade e companhia. Essa coisa mútua.
Dionysios presente. Desde o muito antigo estar naqueles dias, não vai rolar nada, calma Bete, calma, não tô afins, nem vem que não tem, amarrei um bode, você só pensa nisso; até o moderninho: sem camisinha não, ou ?sinto falta de um envolvimento maior?. Você está aqui, querida, o que vier venha naturalmente. Cada garota tem um transe diverso. A menina quase sempre prevalece fantasiada de mulher experiente, femme fatale: fome fatal.
Normalmente dou força para que ela solte o transe. Está beleza essa fantasia, esse carnaval de sensações te faz bem? Voilá! Voe, curta, afirme-se. Por mais pesada seja, és uma tênue ave numa pintura verde impressionista, uma personagem transparente de Renoir em caminho ascendente pelas altas formas arredondadas do amarelo. Minha linda dançarina de Can-Can. Não for rumo ao motel, vais voar pra seu quarto, isolar-se na areia úmida da solitude.
A impressão do olhar no retrato de uma jovem, pintada por Degas. Tonalidades subliminares na tecida gema de ovo, cor de ouro, topázio. Por mais que tentes ocultar esse rosto sob o véu de Maya irreal dos cosmésticos, tua cor rosa choque tão mais nua, na aparência exposta da essência indissimulável.
? Que te oprime ? Quem te aflige ? O veneno natural da rotina, o transe diário do mundo ? Xoxota é sempre bem vinda, com ou sem tpm. A gente sabe fazer de conta que se ama. Nosso compromisso, tesão da libido. Funciona? Infinito enquanto não paga mico.
Fêmea! Passaporte para as mais variegadas terras anímicas. Paradoxo: as rufas e as rugas com o sexo oposto são mais numerosas do que poderia imaginar. Lembro uma prima, toda fácil, aparentemente. Chegava-se oferecida, na horinha do dedinho, chega pra lá, onde já se viu, sai. Apresentado. Vou dizer pra tia... Queria uma besta para amarrar cabresto.
Algum tempo mais tarde, a mesma coisa. Mocinha, vinha com tudo o que tinha direito, enamorada. O chega mais dos aconchegos terminava num chega pra lá. A noção de sexo pecado, mesmo sendo cansativamente passada por uma mãe pseudobeata e um pai farsante, moral e fisicamente impotente, nunca me fazia a cabeça.
As priminhas mais novas sim, que maturidade.
Tão fácil vê o que as gurias-família queriam no início da década de setenta. Como se expunham excessivamente em cada gesto, olhar, falar. Que poderiam querer, senão o compromisso do passarinho dentro da gaiola das xoxotinhas, loucas para laçar o marmanjo que nelas apostasse canalizar todas as carências do se dar bem? Dar-se bem para elas era casar. No fundo, no fundo, com feminismo e tudo, acho que a coisa não mudou hoje, limiar do Terceiro Milênio.
Imaginava que aquelas garotas passavam a noite e as madrugadas piscando, piscando, como estrelinhas distantes, as mãos no firmamento das calcinhas, a ponta dos dedinhos na fresta entre as coxas entreabertas, deitadas nas redes, nas camas, embaixo dos lençóis. As coxinhas cruzadas, as perninhas no balanço vão e voltam.
Mendigavam sob as pálpebras que se abriam e fechavam nos momentos solitários, ?namoro sério?, um marido pelo amor de Cristo. Aprendiam desde muito cedo o medo mórbido, avassalador, das tiazinhas de saias longas que acabaram ficando, Deus do céu, Jesus Salvador, pra titias.
O sexo necessidade, medo, horror da desproteção. A sedução da virgindade enquanto arma, arapuca, prisão, panacéia para atrair e pegar passarinhos, pintainhos, canarinhos, eles também horrorizados com o fantasma da solidão.
A coisa do sexo surgiu enquanto guri. Não sei se precoce, 8, 9 anos. Chegava-me à rede da doméstica, de madruga. A primeira vez foi surpresa e susto. O piu-piu pequeno durinho querendo encorpar. O corpo magro entre as coxas da vasta terra arável. Eu, com meu tratorzinho de brinquedo. Ela cedia, abria os joelhos, como quem não quer

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13070ft1  escrito em quinta 29 novembro 2007 20:49

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